
Nas anteriores denúncias conservadoras tomam‑se sempre como referência as utopias positivas, sociais e políticas que, desde a República de PLATÃO, do Li‑Ji chinês, do mazdkismo islâmico até às grandes utopias dos tempos modernos, sempre ansiaram por alcançar um céu secular, desprovido embora de espaço e de tempo (utópico e ucrónico). Uma história bastante completa das manifestações do pensamento utópico pode ver‑se em Histoire Générale du Socialisme, Puf., 1972.
A chamada futurologia não se evade no espaço e no tempo para fundar a cidade ideal; planifica, sim, para um futuro mais ou menos próximo o desenvolvimento da polis real. «Os mágicos despertam» e antecipam o progresso tecnológico a fim de se reforçar a aceitação da quotidianidade e de se conseguir o apaziguamento das inquietações presentes. Dissolver o presente no futuro, colocando entre parentesis o momento de negatividade crítica atrás apontado ao pensamento utópico e subjugar o processo histórico mediante uma drenagem laboratorial é, para muitos, o sentido do futuro. MC HALE sintetizou muito bem a filosofia dos futurologistas: o futuro do passado está no presente, o futuro do presente está no passado, o futuro do futuro está no presente. Cfr. A. C. DECOUFLÉ, La prospective, Que sais je?, 1972, pág. 9.
Certamente que não nos furtaríamos à acusação de socialmente reaccionários se comprometessemos na crítica desenhada nas linhas anteriores todas as investigações interessadas na apreensão da essência da revolução tecnológica, e das suas implicações sociais. As possibilidades das transformações revolucionárias da cibernética e da electrónica ganharão mesmo todo o seu alcance nos domínios da planificação e orientação do desenvolvimento social. Neste sentido se esforçam os autores por demonstrar a isenção da prospectiva e o compromisso frequente da futurologia. Neste sentido mencionaremos apenas duas obras notáveis: BERTRAND de JOUVENEL, L'art de la conjecture, 1964, pág. 30 e RADOVAN RICHTA, Economia Socialista e Revolução Tecnológica, trad. bras., 1972, pág. 295.
Em que ordem social e em que condições se poderá chegar a uma civilização cibernética não limitada a um incessante aumento de forças produtivas com o único objectivo de produzir uma dada situação? Os prospectivistas mais esclarecidos não escondem a gravidade da questão. Numa reunião internacional de futurólogos realizada em 1970 na cidade japonesa de Kioto, ROBERT JUNGK, o conhecido autor do livro Mais Brilhante que mil sóis» proclamava:
«Temos de trazer os debates para a praça pública; é um dever de cada um de nós.»
E LUCIEN GÉRARDIN, no estimulante livro «Futuros Possíveis», recentemente traduzido para português, completa a proclamação de JUNGK com uma série de interrogativas que nós, adoptaremos à guisa de prólogo:
«Que os estudos sobre o futuro se multipliquem é muito bom, anotou alguém cujo nome não fixei. Mas atenção: até aqui tais estudos sempre foram obra de especialistas. Há um risco de um círculo vicioso. Quem está na origem desses estudos! Quem os financia? Quem utiliza os seus resultados? Não haverá aí um risco camuflado de colonização do futuro pela classe técnica (ou pior ainda, tecnocrática) dirigente?» Cfr. LUCIEN GÉRARDIN, Os Futuros Possíveis, Moraes, 1972, pág .35.
A futurologia no sistema do capitalismo monopolista
Todos sabemos que às incursões episódicas e individuais na civilização futura se sucedem, na época actual, os estudos sistemáticos sobre o futuro.
Fundam‑se estabelecimentos científicos exclusivamente dedicados à prospecção: a Comissão do ano 2000, a Comissão da Academia Americana de Artes e Ciências, o Instituto Hudson, as Corporações Rand, as Fontes do Futuro, nos Estados Unidos; a Associação Internacional dos Futuríveis, o Grupo 1985, em França; A Sociedade Ocidental Alemã para os problemas do Futuro, os Institutos de estudos do futuro Berlim‑Oeste, Munique e Tübingen, na Alemanha; O Comité para os trinta anos seguintes, o grupo de trabalho «Humanidade 2000», na Inglaterra. Centros futurológicos funcionam em várias cidades como Roma, Tóquio, Viena, Oslo, Bale, Amersfoort, etc.
Os futurólogos não dispensam as suas revistas: Futurist, Analyse, Prévision, 2000. Outras, como Daedalus, Public Interest, Kurbuch, dedicam também grande interesse a assuntos de prospectiva social.
Realizam‑se conferências: conferência em Oslo (1967), Tóquio (1970), etc.
Publicam‑se livros tornados verdadeiros «best‑sellers»: Ano 2000 de HERMANN KAHN e ANTHONY WIENER, Para uma moral prospectiva, Ideias para o progresso social e científico, A civilização de 1985, de JEAN FOURASTIÉ, e muitos outros.
Mas porquê tanta azáfama futurológica? Eis uma resposta clara, inserida num estudo sobre o tema «futurologia ‑ prospectiva ‑ planificação» preparada para a sessão de Outubro de 1968 do CDU da Alemanha e subsidiado pelo Instituto Konrad Adenauer:
«Teatro de futuros combates políticos não deve ser abandonada aos socialistas.»
K. Lotz, presidente do conselho de administração da Volkswagen indica sem rodeios os fins do Instituto para o estudo das linhas do desenvolvimento tecnológico:
«Este Instituto será posto ao serviço do indústria.» As citações do texto foram colhidas na «La nouvelle revue internationale», que dedicou o número de Fevereiro de 1971 ao tema «O futuro e a luta ideológica».
Perguntemos agora à Rand Corporation, ao System Development Corporation, ao Hudson Institut, verdadeiros reservatórios de cérebros pensantes (think tanks), as verdadeiras finalidades da sua ultrasecreta actividade. Toda a publicidade sobre este ponto não pecará por excesso: nesses institutos se fazem previsões militares, se calculam as mega‑mortes (milhões de cadáveres humanos volatilizados pela apocalipse nuclear) e se refinam as últimas novidades em matéria de eficiência bélica. Interroguemos o Edgewood Arsenal (principal centro america-no de investigações sobre a guerra química) para que servem os seus estudos: preparar a utilização de produtos químicos, como matérias desfolhantes, 50.000 toneladas das quais foram lançadas sobre as florestas e culturas do Vietnam. Sobre isto, cfr. GÉRARDIN, Os Futuros Possíveis, cit., pág. 104.
As referências poderiam repetir‑se. Interessa, porém, esclarecer melhor o verdadeiro significado desta obsessão crescente dos futurólogos e prospectivistas em penetrar nas dimensões do futuro. Ora, a primeira observação a fazer é a de que as opções inspiradoras da imaginação tecnológica são inseparáveis das realidades ideológicas do presente. É evidente que se partirmos da ideia de que o que é decisivo para a civilização industrial contemporânea, filha da acumulação do capital, é a extensão destas mesmas relações, o prognóstico sobre o futuro situar‑se‑á no feixe de possibilidades que abre o processo de extensão de reprodução do capital. Esta razão pela qual grande parte da futurologia burguesa assume um papel preventivo de controlo social. A futurologia é, deste modo, um factor ou elemento unidimensionalizante, para utilizarmos a linguagem marcusiana. Dirigir é prever e prever racionalmente é substituir o «acaso evolutivo» pela extrapolação do presente. As profecias autorealizam‑se porque, como intui perspicazmente W. J. THOMAS, «se os homens definem as situações como reais elas são reais nas suas consequências». Do mesmo modo, os futurologistas criando imagens sobre o futuro podem muito bem influir sobre a criação desse futuro. Tudo se traduz em prever a marcha eventual dos acontecimentos e permitir tomar as medidas apropriadas. Tudo se traduz numa hipnotização das massas para a aceitação de um futuro inevitável deduzido do presente. Cfr. as pertinentes observações de I. L. HOROWITZ, RADOVAN RICHITA e OTA SULC na Revue Internationale des Sciences Sociales, vol. XXI, 1969, número todo ele dedicado à futurologia.
Não será surpresa para ninguém, a atentarmos nas coordenadas antecedentes, que o programa para o ano 2000 da Academia Americana de Letras e Ciências se identificasse quase completamente com o mito da Grande Sociedade do ex‑presidente Johnson. Tão pouco nos admirará que o famoso método dos cenários de HERMANN KAHN nos conduza ao ano 2000 segundo a óptica imperialista de uma grande potência. Que espanto poderá causar que as investigações efectuadas pela Rand Corporatian, Pittsburgh Values Project, World Future Society, de acordo com o método de Delphos, de O. HELMER e T. GORDON, tenham chegado a mundos sensivelmente idênticos, não obstante os objectivos diferentes que tinham sido indicados aos planificadores? Trabalhando a partir de postulados do sistema social actual não será também lógica que as respostas de sábios eminentes e de administradores de domínios científicos particularmente preocupados com os problemas do futuro se tenham na generalidade mostrado favoráveis à manutenção dos valores americanos presentes? (questionários Reschener). Uma excelente síntese sobre os instrumentos da análise prospectiva ver‑se‑á em DECOUFLÉ, La prospective, pág. 13ss.
Qualquer coisa falta nesta prospecção do futuro. JUNGK dirá que a imaginação lógica deverá ser completada pela imaginação crítica e pela imaginação criadora. Cfr. ROBERT JUNGK, L'imagination et la prospective, in Revue Internacional des Sciences Sociales, vol. XXI, pág. 600. NORBERT WIENER, de acordo com o que escreveu no seu famoso livro «Cibernética e Sociedade ‑ o uso humano dos seres humanos», coloca-nos em alerta contra uma ciência preocupada com o Know‑How e pouco atenta ao Know‑What. Ouçamos as suas palavras magistrais:
«Falei de máquinas, mas não somente de máquinas com cérebros de bronze e músculos de ferro. Quando átomos humanos são arregimentados numa organização que os usa, não na sua plenitude de seres humanos responsáveis, mas como dentes de engrenagem, alavancas e bielas, pouco importa que eles sejam feitos de carne e sangue. O que for usado como peça de uma máquina é de facto uma peça dessa máquina. Quer confiemos nossas decisões a máquinas de metal ou a essas máquinas, de sangue e carne, que são as repartições oficiais, os vastos laboratórios, os exércitos e as companhias comerciais e industriais, jamais receberemos respostas certas às nossas perguntas se não fizermos perguntas certas. A garra do macaco de carne e osso é tão mortífera como qualquer coisa feita de ferro ou aço. O jim que é uma linguagem unificadora de toda uma corporação é tão terrível como se fosse uma celebrada invocação.
A hora é muito tardia, e a opção entre o bem e o mal bate‑nos à porta.» Citação extraída do livro Cibernética e Sociedade ‑ o uso humano de seres humanos, trad. bras. Cultrix, pág. 183.
A opção pelo mal ‑ a futurologia convertida em tecnologia política
A confiança na prospectiva tecnológica elaborada com o auxílio de computadores, modelos, esquemas, números e gráficos conduziu inevitavelmente ao aparecimento do «novo utopista» com responsabilidade na, praxis concreta do poder. Estes novos utopistas (quem não conhece MAC NAMARA?) partem desta hipótese fundamental: no domínio da decisão política é também possível chegar‑se a uma verdade objectiva, bastando apenas fazer coincidir essa verdade com os resultados materiais correctamente fixados em termos tecnológicos. Compreende‑se, desta forma, a presença dos valores orientadores do esforço tecnico‑científico na elaboração da política e da tecnologia e a transformação da tecnologia em princípio generalizador regendo as outras políticas.
Assinala com razão MALDONADO a subjacência, nesta tecnologia política, do velho mito de inspiração positivista que hipotetisa uma, identidade absoluta, estrutural, entre o universo físico e o universo social, imaginando então que, como no primeiro é possível agir unicamente sobre os factos sem considerar os valores, também em face do segundo é possível assumir a mesma atitude. Cfr. TOMAS MALDONADO, Environnement et ideologie, col. 10/18, 1972, pág. 140 ss., que põe em relevo a influência determinante de certas personalidades sobre as doutrinas diplomático‑militares oficiais dos Estados Unidos. Avulta entre elas H. Kahn acerca do qual MALDONADO escreve: «em KAHN não se encontra qualquer forma de «prudery» ‑ vitoriana ou de qualquer outro tipo ‑ nem qualquer forma de respeito para com os outros que, por uma razão ou por outra, contestam a «pax americana» que ele propõe. A linguagem de KAHN não tem precedentes na longa e lúgubre história dos intelectuais ao serviço do poder». Não admira, assim, que KAHN possa afirmar (erradamente a nosso ver): «a guerra do Vietnam foi uma vitória para os E.U.A.» (in Expresso, 7 de Julho de 1973).
Os resultados estão à vista: soluções tecnológicas para problemas que visivelmente não são tecnológicos e aí temos o «basic‑system» de MAC NAMARA a apoiar a sua estratégia político‑militar no mais impressionante conjunto de dados científicos que os computadores e cérebros pensantes como H. KAHN puseram à sua disposição.
Patente ainda nesta metodologia tecnocrática um carácter tendencioso, maniqueu e beligerante que levou a solucionar problemas do homem aplicando o método do governo das coisas. Mais do que isso ainda: a eliminação da interferência subjectiva nos modelos de decisão deixa de ser uma cibernética social dirigida ao uso humano de seres humanos para passar a identificar o homem com o mal e o bem com os resultados tecnologicamente acertados (destruições, desiquilíbrios ecológicos, etc.).
A previsão tecnológica normativa:
Ao delimitarmos o conceito de utopia sociologicamente correcto aludimos ao carácter intencional e normativo de utopia. Apontamos o seu momento crítico e o seu elemento positivo. A cidade da utopia é um dever‑ser.
No que respeita à prospectiva, também nem todos os seus cultores enveredam pelo mito da neutralidade ética, segundo a qual o sábio, o perito, o homem da ciência devem abordar os factos com uma inocência total. Alguns deles entendem que toda a mudança não originadora de uma mudança fundamental dos valores limita‑se a prolongar o presente em vez de criar o futuro. Neste contexto nos surgem as distinções entre «previsão exploratória» e «previsão tecnológica normativa» de ERICH JANTSCH ou entre «plano normativo», «plano estratégico» e «plano operacional» de HANS OZBEKHAN.
«A previsão tecnológica normativa ‑ diz JANTSCH ‑ partindo das necessidades da sociedade, pode servir de guia e estimulante para a investigação fundamental nos domínios
sociais, tal como actualmente o faz a indústria nos mesmos domínios.» Cit. por JEAN JAQUES SALOMON, Science et Politique, Ed. Seuil, 1970. pág. 172 ss.
Por sua vez, OZBEKHAN escreve:
«De uma maneira ou de outra é preciso criar e utilizar o hábito de ligar o valor de um acto presente ao valor das consequências deliberadamente visadas. Só uma tal correlação nos permitirá escolher os fins sobre os quais deveremos fazer incidir um prognóstico pessoal. Para este tipo de planificação faltam‑nos duas coisas: primeiro uma metodologia e uma teoria devidamente afinadas. Temos necessidade de uma espécie de contabilidade social bem como de uma análise infinitesimal (uma axiologia) para a completar. A edificação de uma teoria sofre a influência das nossas instituições sociais. Isso é sobretudo visível nas dificuldades que nós, conhecemos para determinar quem vai elaborar os planos. Não sabemos se a resposta para este dilema é uma planificação pluralista, uma planificação «plaidoyer» (de advogado?) ou uma planificação por peritos»... fr. IRENE TAVISS, La futurologie et le problème des valeurs, Revue Internationale des Sciences Sociales, vol. XXI, pág. 628. O desenvolvimento dos postulados da previsão tecnológica normativa ver‑se‑á em JANTSCH, Prospective et Politique, OCDE, Paris, 1969.
As perplexidades de OZBEKHAN aproximam‑se, mas não enfrentam, o punctum saliens do problema. Pois o que afinal vem a estar em causa é o modus faciendi da participação democrática, é a consideração dos valores como aspecto integrante de mudança social e não como simples epifenómeno da evolução dos valores estabelecidos. Esta a razão profunda da incompatibilidade entre um modelo utópico, intencional‑normativo e uma previsão tecnológica normativa. Se o futuro é, em ambas, considerado como dever ser, o futuro utópico é sempre mudança qualitativa transcendente ao sistema; o futuro da futurologia é evolução por extrapolação do presente, é um projecto de mudança imanente ao sistema. As posições de JANTSCH e OZBEKHAN, ao orientarem‑se para um tratamento normativo do futuro, afiguram‑se‑nos de primacial interesse em todas as politicas não exclusivamente voltadas para uma «colonização» do futuro. De muita importância as observações de OZBEKHAN no trabalho «Vers une théorie générale de la planification», pág. 42 ss., inserido no livro citado de JANTSCH Prospective et Planification.
A chamada futurologia não se evade no espaço e no tempo para fundar a cidade ideal; planifica, sim, para um futuro mais ou menos próximo o desenvolvimento da polis real. «Os mágicos despertam» e antecipam o progresso tecnológico a fim de se reforçar a aceitação da quotidianidade e de se conseguir o apaziguamento das inquietações presentes. Dissolver o presente no futuro, colocando entre parentesis o momento de negatividade crítica atrás apontado ao pensamento utópico e subjugar o processo histórico mediante uma drenagem laboratorial é, para muitos, o sentido do futuro. MC HALE sintetizou muito bem a filosofia dos futurologistas: o futuro do passado está no presente, o futuro do presente está no passado, o futuro do futuro está no presente. Cfr. A. C. DECOUFLÉ, La prospective, Que sais je?, 1972, pág. 9.
Certamente que não nos furtaríamos à acusação de socialmente reaccionários se comprometessemos na crítica desenhada nas linhas anteriores todas as investigações interessadas na apreensão da essência da revolução tecnológica, e das suas implicações sociais. As possibilidades das transformações revolucionárias da cibernética e da electrónica ganharão mesmo todo o seu alcance nos domínios da planificação e orientação do desenvolvimento social. Neste sentido se esforçam os autores por demonstrar a isenção da prospectiva e o compromisso frequente da futurologia. Neste sentido mencionaremos apenas duas obras notáveis: BERTRAND de JOUVENEL, L'art de la conjecture, 1964, pág. 30 e RADOVAN RICHTA, Economia Socialista e Revolução Tecnológica, trad. bras., 1972, pág. 295.
Em que ordem social e em que condições se poderá chegar a uma civilização cibernética não limitada a um incessante aumento de forças produtivas com o único objectivo de produzir uma dada situação? Os prospectivistas mais esclarecidos não escondem a gravidade da questão. Numa reunião internacional de futurólogos realizada em 1970 na cidade japonesa de Kioto, ROBERT JUNGK, o conhecido autor do livro Mais Brilhante que mil sóis» proclamava:
«Temos de trazer os debates para a praça pública; é um dever de cada um de nós.»
E LUCIEN GÉRARDIN, no estimulante livro «Futuros Possíveis», recentemente traduzido para português, completa a proclamação de JUNGK com uma série de interrogativas que nós, adoptaremos à guisa de prólogo:
«Que os estudos sobre o futuro se multipliquem é muito bom, anotou alguém cujo nome não fixei. Mas atenção: até aqui tais estudos sempre foram obra de especialistas. Há um risco de um círculo vicioso. Quem está na origem desses estudos! Quem os financia? Quem utiliza os seus resultados? Não haverá aí um risco camuflado de colonização do futuro pela classe técnica (ou pior ainda, tecnocrática) dirigente?» Cfr. LUCIEN GÉRARDIN, Os Futuros Possíveis, Moraes, 1972, pág .35.
A futurologia no sistema do capitalismo monopolista
Todos sabemos que às incursões episódicas e individuais na civilização futura se sucedem, na época actual, os estudos sistemáticos sobre o futuro.
Fundam‑se estabelecimentos científicos exclusivamente dedicados à prospecção: a Comissão do ano 2000, a Comissão da Academia Americana de Artes e Ciências, o Instituto Hudson, as Corporações Rand, as Fontes do Futuro, nos Estados Unidos; a Associação Internacional dos Futuríveis, o Grupo 1985, em França; A Sociedade Ocidental Alemã para os problemas do Futuro, os Institutos de estudos do futuro Berlim‑Oeste, Munique e Tübingen, na Alemanha; O Comité para os trinta anos seguintes, o grupo de trabalho «Humanidade 2000», na Inglaterra. Centros futurológicos funcionam em várias cidades como Roma, Tóquio, Viena, Oslo, Bale, Amersfoort, etc.
Os futurólogos não dispensam as suas revistas: Futurist, Analyse, Prévision, 2000. Outras, como Daedalus, Public Interest, Kurbuch, dedicam também grande interesse a assuntos de prospectiva social.
Realizam‑se conferências: conferência em Oslo (1967), Tóquio (1970), etc.
Publicam‑se livros tornados verdadeiros «best‑sellers»: Ano 2000 de HERMANN KAHN e ANTHONY WIENER, Para uma moral prospectiva, Ideias para o progresso social e científico, A civilização de 1985, de JEAN FOURASTIÉ, e muitos outros.
Mas porquê tanta azáfama futurológica? Eis uma resposta clara, inserida num estudo sobre o tema «futurologia ‑ prospectiva ‑ planificação» preparada para a sessão de Outubro de 1968 do CDU da Alemanha e subsidiado pelo Instituto Konrad Adenauer:
«Teatro de futuros combates políticos não deve ser abandonada aos socialistas.»
K. Lotz, presidente do conselho de administração da Volkswagen indica sem rodeios os fins do Instituto para o estudo das linhas do desenvolvimento tecnológico:
«Este Instituto será posto ao serviço do indústria.» As citações do texto foram colhidas na «La nouvelle revue internationale», que dedicou o número de Fevereiro de 1971 ao tema «O futuro e a luta ideológica».
Perguntemos agora à Rand Corporation, ao System Development Corporation, ao Hudson Institut, verdadeiros reservatórios de cérebros pensantes (think tanks), as verdadeiras finalidades da sua ultrasecreta actividade. Toda a publicidade sobre este ponto não pecará por excesso: nesses institutos se fazem previsões militares, se calculam as mega‑mortes (milhões de cadáveres humanos volatilizados pela apocalipse nuclear) e se refinam as últimas novidades em matéria de eficiência bélica. Interroguemos o Edgewood Arsenal (principal centro america-no de investigações sobre a guerra química) para que servem os seus estudos: preparar a utilização de produtos químicos, como matérias desfolhantes, 50.000 toneladas das quais foram lançadas sobre as florestas e culturas do Vietnam. Sobre isto, cfr. GÉRARDIN, Os Futuros Possíveis, cit., pág. 104.
As referências poderiam repetir‑se. Interessa, porém, esclarecer melhor o verdadeiro significado desta obsessão crescente dos futurólogos e prospectivistas em penetrar nas dimensões do futuro. Ora, a primeira observação a fazer é a de que as opções inspiradoras da imaginação tecnológica são inseparáveis das realidades ideológicas do presente. É evidente que se partirmos da ideia de que o que é decisivo para a civilização industrial contemporânea, filha da acumulação do capital, é a extensão destas mesmas relações, o prognóstico sobre o futuro situar‑se‑á no feixe de possibilidades que abre o processo de extensão de reprodução do capital. Esta razão pela qual grande parte da futurologia burguesa assume um papel preventivo de controlo social. A futurologia é, deste modo, um factor ou elemento unidimensionalizante, para utilizarmos a linguagem marcusiana. Dirigir é prever e prever racionalmente é substituir o «acaso evolutivo» pela extrapolação do presente. As profecias autorealizam‑se porque, como intui perspicazmente W. J. THOMAS, «se os homens definem as situações como reais elas são reais nas suas consequências». Do mesmo modo, os futurologistas criando imagens sobre o futuro podem muito bem influir sobre a criação desse futuro. Tudo se traduz em prever a marcha eventual dos acontecimentos e permitir tomar as medidas apropriadas. Tudo se traduz numa hipnotização das massas para a aceitação de um futuro inevitável deduzido do presente. Cfr. as pertinentes observações de I. L. HOROWITZ, RADOVAN RICHITA e OTA SULC na Revue Internationale des Sciences Sociales, vol. XXI, 1969, número todo ele dedicado à futurologia.
Não será surpresa para ninguém, a atentarmos nas coordenadas antecedentes, que o programa para o ano 2000 da Academia Americana de Letras e Ciências se identificasse quase completamente com o mito da Grande Sociedade do ex‑presidente Johnson. Tão pouco nos admirará que o famoso método dos cenários de HERMANN KAHN nos conduza ao ano 2000 segundo a óptica imperialista de uma grande potência. Que espanto poderá causar que as investigações efectuadas pela Rand Corporatian, Pittsburgh Values Project, World Future Society, de acordo com o método de Delphos, de O. HELMER e T. GORDON, tenham chegado a mundos sensivelmente idênticos, não obstante os objectivos diferentes que tinham sido indicados aos planificadores? Trabalhando a partir de postulados do sistema social actual não será também lógica que as respostas de sábios eminentes e de administradores de domínios científicos particularmente preocupados com os problemas do futuro se tenham na generalidade mostrado favoráveis à manutenção dos valores americanos presentes? (questionários Reschener). Uma excelente síntese sobre os instrumentos da análise prospectiva ver‑se‑á em DECOUFLÉ, La prospective, pág. 13ss.
Qualquer coisa falta nesta prospecção do futuro. JUNGK dirá que a imaginação lógica deverá ser completada pela imaginação crítica e pela imaginação criadora. Cfr. ROBERT JUNGK, L'imagination et la prospective, in Revue Internacional des Sciences Sociales, vol. XXI, pág. 600. NORBERT WIENER, de acordo com o que escreveu no seu famoso livro «Cibernética e Sociedade ‑ o uso humano dos seres humanos», coloca-nos em alerta contra uma ciência preocupada com o Know‑How e pouco atenta ao Know‑What. Ouçamos as suas palavras magistrais:
«Falei de máquinas, mas não somente de máquinas com cérebros de bronze e músculos de ferro. Quando átomos humanos são arregimentados numa organização que os usa, não na sua plenitude de seres humanos responsáveis, mas como dentes de engrenagem, alavancas e bielas, pouco importa que eles sejam feitos de carne e sangue. O que for usado como peça de uma máquina é de facto uma peça dessa máquina. Quer confiemos nossas decisões a máquinas de metal ou a essas máquinas, de sangue e carne, que são as repartições oficiais, os vastos laboratórios, os exércitos e as companhias comerciais e industriais, jamais receberemos respostas certas às nossas perguntas se não fizermos perguntas certas. A garra do macaco de carne e osso é tão mortífera como qualquer coisa feita de ferro ou aço. O jim que é uma linguagem unificadora de toda uma corporação é tão terrível como se fosse uma celebrada invocação.
A hora é muito tardia, e a opção entre o bem e o mal bate‑nos à porta.» Citação extraída do livro Cibernética e Sociedade ‑ o uso humano de seres humanos, trad. bras. Cultrix, pág. 183.
A opção pelo mal ‑ a futurologia convertida em tecnologia política
A confiança na prospectiva tecnológica elaborada com o auxílio de computadores, modelos, esquemas, números e gráficos conduziu inevitavelmente ao aparecimento do «novo utopista» com responsabilidade na, praxis concreta do poder. Estes novos utopistas (quem não conhece MAC NAMARA?) partem desta hipótese fundamental: no domínio da decisão política é também possível chegar‑se a uma verdade objectiva, bastando apenas fazer coincidir essa verdade com os resultados materiais correctamente fixados em termos tecnológicos. Compreende‑se, desta forma, a presença dos valores orientadores do esforço tecnico‑científico na elaboração da política e da tecnologia e a transformação da tecnologia em princípio generalizador regendo as outras políticas.
Assinala com razão MALDONADO a subjacência, nesta tecnologia política, do velho mito de inspiração positivista que hipotetisa uma, identidade absoluta, estrutural, entre o universo físico e o universo social, imaginando então que, como no primeiro é possível agir unicamente sobre os factos sem considerar os valores, também em face do segundo é possível assumir a mesma atitude. Cfr. TOMAS MALDONADO, Environnement et ideologie, col. 10/18, 1972, pág. 140 ss., que põe em relevo a influência determinante de certas personalidades sobre as doutrinas diplomático‑militares oficiais dos Estados Unidos. Avulta entre elas H. Kahn acerca do qual MALDONADO escreve: «em KAHN não se encontra qualquer forma de «prudery» ‑ vitoriana ou de qualquer outro tipo ‑ nem qualquer forma de respeito para com os outros que, por uma razão ou por outra, contestam a «pax americana» que ele propõe. A linguagem de KAHN não tem precedentes na longa e lúgubre história dos intelectuais ao serviço do poder». Não admira, assim, que KAHN possa afirmar (erradamente a nosso ver): «a guerra do Vietnam foi uma vitória para os E.U.A.» (in Expresso, 7 de Julho de 1973).
Os resultados estão à vista: soluções tecnológicas para problemas que visivelmente não são tecnológicos e aí temos o «basic‑system» de MAC NAMARA a apoiar a sua estratégia político‑militar no mais impressionante conjunto de dados científicos que os computadores e cérebros pensantes como H. KAHN puseram à sua disposição.
Patente ainda nesta metodologia tecnocrática um carácter tendencioso, maniqueu e beligerante que levou a solucionar problemas do homem aplicando o método do governo das coisas. Mais do que isso ainda: a eliminação da interferência subjectiva nos modelos de decisão deixa de ser uma cibernética social dirigida ao uso humano de seres humanos para passar a identificar o homem com o mal e o bem com os resultados tecnologicamente acertados (destruições, desiquilíbrios ecológicos, etc.).
A previsão tecnológica normativa:
Ao delimitarmos o conceito de utopia sociologicamente correcto aludimos ao carácter intencional e normativo de utopia. Apontamos o seu momento crítico e o seu elemento positivo. A cidade da utopia é um dever‑ser.
No que respeita à prospectiva, também nem todos os seus cultores enveredam pelo mito da neutralidade ética, segundo a qual o sábio, o perito, o homem da ciência devem abordar os factos com uma inocência total. Alguns deles entendem que toda a mudança não originadora de uma mudança fundamental dos valores limita‑se a prolongar o presente em vez de criar o futuro. Neste contexto nos surgem as distinções entre «previsão exploratória» e «previsão tecnológica normativa» de ERICH JANTSCH ou entre «plano normativo», «plano estratégico» e «plano operacional» de HANS OZBEKHAN.
«A previsão tecnológica normativa ‑ diz JANTSCH ‑ partindo das necessidades da sociedade, pode servir de guia e estimulante para a investigação fundamental nos domínios
sociais, tal como actualmente o faz a indústria nos mesmos domínios.» Cit. por JEAN JAQUES SALOMON, Science et Politique, Ed. Seuil, 1970. pág. 172 ss.
Por sua vez, OZBEKHAN escreve:
«De uma maneira ou de outra é preciso criar e utilizar o hábito de ligar o valor de um acto presente ao valor das consequências deliberadamente visadas. Só uma tal correlação nos permitirá escolher os fins sobre os quais deveremos fazer incidir um prognóstico pessoal. Para este tipo de planificação faltam‑nos duas coisas: primeiro uma metodologia e uma teoria devidamente afinadas. Temos necessidade de uma espécie de contabilidade social bem como de uma análise infinitesimal (uma axiologia) para a completar. A edificação de uma teoria sofre a influência das nossas instituições sociais. Isso é sobretudo visível nas dificuldades que nós, conhecemos para determinar quem vai elaborar os planos. Não sabemos se a resposta para este dilema é uma planificação pluralista, uma planificação «plaidoyer» (de advogado?) ou uma planificação por peritos»... fr. IRENE TAVISS, La futurologie et le problème des valeurs, Revue Internationale des Sciences Sociales, vol. XXI, pág. 628. O desenvolvimento dos postulados da previsão tecnológica normativa ver‑se‑á em JANTSCH, Prospective et Politique, OCDE, Paris, 1969.
As perplexidades de OZBEKHAN aproximam‑se, mas não enfrentam, o punctum saliens do problema. Pois o que afinal vem a estar em causa é o modus faciendi da participação democrática, é a consideração dos valores como aspecto integrante de mudança social e não como simples epifenómeno da evolução dos valores estabelecidos. Esta a razão profunda da incompatibilidade entre um modelo utópico, intencional‑normativo e uma previsão tecnológica normativa. Se o futuro é, em ambas, considerado como dever ser, o futuro utópico é sempre mudança qualitativa transcendente ao sistema; o futuro da futurologia é evolução por extrapolação do presente, é um projecto de mudança imanente ao sistema. As posições de JANTSCH e OZBEKHAN, ao orientarem‑se para um tratamento normativo do futuro, afiguram‑se‑nos de primacial interesse em todas as politicas não exclusivamente voltadas para uma «colonização» do futuro. De muita importância as observações de OZBEKHAN no trabalho «Vers une théorie générale de la planification», pág. 42 ss., inserido no livro citado de JANTSCH Prospective et Planification.
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