
«O tema da utopia ainda não encontrou o seu Marx e Mannheim não o pôde substituir» (Cfr. ARNHELM NEUSÜSS, Utopia, trad. esp., 1971, pág. 23.)
Nesta afirmação de NEUSÜSS vai implícita a ideia de que a ideologia (ideologia - falsa - consciência ou ideologia - acção) foi já submetida a uma apreciável elaboração teórica, de decisiva importância em qualquer teoria crítica da sociedade, ao passo que à utopia se continua a negar as honras de conceito operativo, não obstante, como salientou justamente Comte, «as utopias reflectirem com toda a fidelidade, nos seus sonhos, a condição social de uma época». (A. COMTE, Cours de Philosophie positive, cit., por R. de VENTOS, Las utopias sensuales de nuestro tiempo, in Teoria y Sociedade, 1970, pág. 431. )
Com efeito, as realidades que a evolução social está pondo em crise ou está fazendo emergir adquirem valor utópico: os contra - utopistas não querem acreditar em sonhos e agarram-se à terra, ao «melhor dos mundos possíveis»; os utopistas vêem na utopia os valores de um novo mundo. Revolução e reacção surgem, assim, associados a um conceito de utopia intencional-normativo: a crítica do mundo em crise através de projectos com «céus verdes e azuis» é, ao mesmo tempo, uma proposta de rejeição e de construção prospectiva.
Compreende-se, deste modo, a conversão da utopia em conceito ambiguamente polémico, teoricamente espartilhado por correntes de pensamento muitas vezes antagónicas. Ao pensamento conservador-burguês, hostil ao momento de negatividade crítica, presente em todos os modelos utopianos, convém relegar o mundo dos utopistas para o reino do imaginário e da, fantasia; ao pensamento socialista não é grato um conceito voltado para um devir sem tempo nem espaço, desligado de uma praxis actuante no presente. As imagens de um mundo futuro mais feliz equivalem à negação da «ordem natural» das classes dominantes; a visão de uma sociedade considerada óptima não indica, só por si, o caminho da derrocada da ordem existente. Além excesso de dialéctica; aqui pecado por defeito.
Das anteriores considerações resultará já a rejeição de qualquer conceito de utopia superficialmente identificado com cidades imaginárias ou com exercícios mentais prospectivos. As cidades utópicas implicam radicais reformas políticas, económicas, sociais e religiosas e, concomitantemente, pressupõem uma intencionalidade crítica,negativamente valoradora da ordem existente. Um conceito positivo de utopia realça necessariamente o momento de negatividade crítica; um conceito negativo e reaccionário ou reconduzirá a utopia a simples desvarios da imaginação ou reduzi-la-á a um «exercício mental acerca, das laterais possíveis» (RUYER).
A utopia positiva, tal como acaba de caracterizar-se, pode ainda não satisfazer totalmente se insistir num defeito congénito das críticas utópicas: o seu carácter abstracto, irresistivelmente conducente à transcendência das situações e não à análise táctico-estratégica dos condicionalismos reais.
Nesta perspectiva, é mister acolher um conceito positivo de utopia, mas impõe-se uma melhor iluminação das relações entre a componente utópico-abstracta e a componente utópico-concreta. Dito de outro modo: a tarefa teórica será a de reforçar a consciência projectiva utopiana mediante a introdução de uma dimensão concreta na consciência crítica. Trata-se, assim, de conseguir a superação das utopias abstractas e neste sentido se dirigem muitos dos, esforços da teoria crítica BLOCH, MARCUSE, da praxeologia e da ecologia crítica. (Fr. TOMAS MALDONADO, Environnement et Ideologie, 1972, p. 105 ss.)
Do lado conservador, também se assiste a uma tentativa, se não de reabilitação, pelo menos de neutralização do conceito de utopia. A herança empirista, a escola weberiana, as teorias dos modelos são os alicerces científicos de um conceito negativo meramente instrumental, no qual a utopia é esvaziada de qualquer intencionalidade critica e reduzida a simples género literário. É esta, por exemplo, a posição de KRYSMANSKI a que aludiremos no texto mais adiante.
A chamada futurologia conduz-nos a tomar contacto com aqueles que BOGUSLAW designou por «novos utopistas» (ROBERT BOGUSLAW, The new utopians: study of system design and social change, Prentice-Hall, 1965, pág. 29.)
Veremos adiante que, em regra, nos projectos futurológicos a prospectiva utópica, criticamente não conforme com o statu quo, é substituída. por uma prospectiva de extrapolação, conservadoramente fiel à manutenção dos valores presentes.
Nesta afirmação de NEUSÜSS vai implícita a ideia de que a ideologia (ideologia - falsa - consciência ou ideologia - acção) foi já submetida a uma apreciável elaboração teórica, de decisiva importância em qualquer teoria crítica da sociedade, ao passo que à utopia se continua a negar as honras de conceito operativo, não obstante, como salientou justamente Comte, «as utopias reflectirem com toda a fidelidade, nos seus sonhos, a condição social de uma época». (A. COMTE, Cours de Philosophie positive, cit., por R. de VENTOS, Las utopias sensuales de nuestro tiempo, in Teoria y Sociedade, 1970, pág. 431. )
Com efeito, as realidades que a evolução social está pondo em crise ou está fazendo emergir adquirem valor utópico: os contra - utopistas não querem acreditar em sonhos e agarram-se à terra, ao «melhor dos mundos possíveis»; os utopistas vêem na utopia os valores de um novo mundo. Revolução e reacção surgem, assim, associados a um conceito de utopia intencional-normativo: a crítica do mundo em crise através de projectos com «céus verdes e azuis» é, ao mesmo tempo, uma proposta de rejeição e de construção prospectiva.
Compreende-se, deste modo, a conversão da utopia em conceito ambiguamente polémico, teoricamente espartilhado por correntes de pensamento muitas vezes antagónicas. Ao pensamento conservador-burguês, hostil ao momento de negatividade crítica, presente em todos os modelos utopianos, convém relegar o mundo dos utopistas para o reino do imaginário e da, fantasia; ao pensamento socialista não é grato um conceito voltado para um devir sem tempo nem espaço, desligado de uma praxis actuante no presente. As imagens de um mundo futuro mais feliz equivalem à negação da «ordem natural» das classes dominantes; a visão de uma sociedade considerada óptima não indica, só por si, o caminho da derrocada da ordem existente. Além excesso de dialéctica; aqui pecado por defeito.
Das anteriores considerações resultará já a rejeição de qualquer conceito de utopia superficialmente identificado com cidades imaginárias ou com exercícios mentais prospectivos. As cidades utópicas implicam radicais reformas políticas, económicas, sociais e religiosas e, concomitantemente, pressupõem uma intencionalidade crítica,negativamente valoradora da ordem existente. Um conceito positivo de utopia realça necessariamente o momento de negatividade crítica; um conceito negativo e reaccionário ou reconduzirá a utopia a simples desvarios da imaginação ou reduzi-la-á a um «exercício mental acerca, das laterais possíveis» (RUYER).
A utopia positiva, tal como acaba de caracterizar-se, pode ainda não satisfazer totalmente se insistir num defeito congénito das críticas utópicas: o seu carácter abstracto, irresistivelmente conducente à transcendência das situações e não à análise táctico-estratégica dos condicionalismos reais.
Nesta perspectiva, é mister acolher um conceito positivo de utopia, mas impõe-se uma melhor iluminação das relações entre a componente utópico-abstracta e a componente utópico-concreta. Dito de outro modo: a tarefa teórica será a de reforçar a consciência projectiva utopiana mediante a introdução de uma dimensão concreta na consciência crítica. Trata-se, assim, de conseguir a superação das utopias abstractas e neste sentido se dirigem muitos dos, esforços da teoria crítica BLOCH, MARCUSE, da praxeologia e da ecologia crítica. (Fr. TOMAS MALDONADO, Environnement et Ideologie, 1972, p. 105 ss.)
Do lado conservador, também se assiste a uma tentativa, se não de reabilitação, pelo menos de neutralização do conceito de utopia. A herança empirista, a escola weberiana, as teorias dos modelos são os alicerces científicos de um conceito negativo meramente instrumental, no qual a utopia é esvaziada de qualquer intencionalidade critica e reduzida a simples género literário. É esta, por exemplo, a posição de KRYSMANSKI a que aludiremos no texto mais adiante.
A chamada futurologia conduz-nos a tomar contacto com aqueles que BOGUSLAW designou por «novos utopistas» (ROBERT BOGUSLAW, The new utopians: study of system design and social change, Prentice-Hall, 1965, pág. 29.)
Veremos adiante que, em regra, nos projectos futurológicos a prospectiva utópica, criticamente não conforme com o statu quo, é substituída. por uma prospectiva de extrapolação, conservadoramente fiel à manutenção dos valores presentes.
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